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C R A S H
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em tons de azul e lima Quinta-feira, Março 31, 2005
Elogio da Sombra A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo da nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e a sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direcção à planície incessante, voltou a ser La Recoleta, o Retiro, as imprecisas ruas do Once e as precárias casas velhas que ainda chamamos de Sul. Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas; Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar; o tempo foi meu Demócrito. Esta penumbra é lenta e não dói; flui por um manso declive e se parece com a eternidade. Meus amigos não têm rosto, as mulheres são aquilo que foram há tantos anos, as esquinas podem ser outras, não há letras nas páginas dos livros. Tudo isso deveria atemorizar-me, mas é um deleite, um retorno. Das gerações dos textos que há na terra só terei lido uns poucos, os que continuo lendo na memória, lendo e transformando. Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte convergem os caminhos que me trouxeram ao meu secreto centro. Esses caminhos foram ecos e passos, mulheres, homens, agonias, ressurreições, dias e noites, entressonhos e sonhos, cada ínfimo instante do ontem e dos ontens do mundo, a firme espada do dinamarquês e a lua do persa, os actos dos mortos, o compartilhado amor, as palavras, Emerson e a neve e tantas coisas. Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro, à minha álgebra e à minha chave, ao meu espelho. Breve saberei quem sou. Jorge Luis Borges postado por: nela cintra 4:41 PM em tons de azul Quarta-feira, Março 23, 2005
postado por: nela cintra 5:58 AM em tons de azul Terça-feira, Março 08, 2005
Queixa das almas jovens censuradas Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola mais um letreiro que promete raízes, hastes e corola Dão-nos um mapa imaginário que tem a forma de uma cidade mais um relógio e um calendário onde não vem a nossa idade Dão-nos a honra de manequim para dar corda à nossa ausência. Dão-nos um prémio de ser assim sem pecado e sem inocência Dão-nos um barco e um chapéu para tirarmos o retrato Dão-nos bilhetes para o céu levado à cena num teatro Penteiam-nos os crâneos ermos com as cabeleiras das avós para jamais nos parecermos connosco quando estamos sós Dão-nos um bolo que é a história da nossa historia sem enredo e não nos soa na memória outra palavra que o medo Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro somos vazios despovoados de personagens de assombro Dão-nos a capa do evangelho e um pacote de tabaco dão-nos um pente e um espelho pra pentearmos um macaco Dão-nos um cravo preso à cabeça e uma cabeça presa à cintura para que o corpo não pareça a forma da alma que o procura Dão-nos um esquife feito de ferro com embutidos de diamante para organizar já o enterro do nosso corpo mais adiante Dão-nos um nome e um jornal um avião e um violino mas não nos dão o animal que espeta os cornos no destino Dão-nos marujos de papelão com carimbo no passaporte por isso a nossa dimensão não é a vida, nem é a morte Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro" postado por: nela cintra 12:21 PM em tons de azul Sábado, Março 05, 2005
De longe Nao chores Mãe... Faz como eu, sorri! Transforma as elegias de um momento em canticos de esperanca e incitamento. Tem fé nos dias que te prometi. E podes crer, estou sempre ao pé de ti, quando por noites de luar, o vento, segreda aos coqueirais o seu lamento, compondo versos que nunca escrevi... Estou junto a ti nos dias de braseiro, no mar...na velha ponte,... no Sombreiro, em tudo quanto amei e quis p'ra mim... Nao chores, mãe!... A hora eh de avançadas!... Nos caminhos certos, de mãos dadas, e havemos de atingir um dia, o fim... Alda Lara postado por: nela cintra 9:00 AM em tons de azul
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