C R A S H  

em tons de azul e lima


 
Querida Avó

Hoje é dia vinte e três. Um dia especial que celebrávamos em conjunto e que se perpetuará com o Avô.
Deixo-te uma rosa vermelha que tanto gostavas e sento-me aqui um bocadinho no teu canto que tanto prazer me dá com um poema da Márcia Maia a fazer-nos companhia no livro que estavas a ler. (Em Queda Livre)

“porque sou do deserto e ele me chama
(bem sei: prefiro à luz a vaga bruma)
escondo-me entre a onda e a espuma
de quem não sabe ainda se me ama.
hesito entre partir na tarde ausente
do azul que tanto amo e se desfaz
(negrume de organdi que a noite traz)
persisto nesta busca improcedente?
pois tu – não virás! – bem sei agora
(fantasmas te povoam peito e mãos)
e em sendo vã a espera o que esperar?
escuso-me ao crepúsculo a à aurora.

depois por ser deserto abraço o mar
que sei que me há-de colher em seus desvãos."


da Thita. Pois sei que estás ao pé de nós.






  posted by MANUELA CINTRA @ 10:21 AM

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Domingo, Setembro 23, 2007  

 


Os revezes da fortuna traíram as palavras que julgava certas.
No entanto, na tua falta, a minha vida tem de continuar. Talvez um pouco mais distante das coisas, mas, ainda assim, continuar presente. Com garra. Fazer valorizar todos estes anos em que me ensinaste a dar atenção a outras que julgava fúteis.
Nestas situações, ninguém pode deixar-se cair e arrastar numa onda de raivas contra o que temos como única certeza.

Aqui jazes, mas ficarás para sempre na memória do que me de melhor me aconteceu.
Deixo-te um beijo caloroso e quente na pedra fria que teima em tentar-me morrer contigo.

eduardo




A minha avó escreveu um texto que ainda guardo nos meus caderninhos escondidos.

"Ao contrário da paixão, as palavras de amor fazem doer. Ferem a alma e agridem o coração. Provocam espasmos no nosso próprio ser, na nossa destilada ira, e fazem sangue. Porque amamos e somos reais.
Por isso eu sei que fazem bem.
Aos olhos de outros, por muito que doa e faça sentir, o Amor assim votado não é, nem pode ser, uma jogada perdida e mal paga ou um penalty falhado à boca da regra e dos limites.
Prevalece mais o não ganhar. Impõe-se mais retribuir tudo aquilo que somos, fomos ou gostaríamos de ter sido. Daí, naturalmente, que sintamos saudades das coisas boas. De gotas de orvalho e erva fresca. Da chuva miudinha e areais com muito sol. De gente só, triste, calada por uma vida ingrata depois de tantos anos de sorrisos. Dia de nunca descrever o que sinto ou, por acaso ou por destino, um dia de calar e esconder o que vai no coração.
Viverei para o saber? Sou muito bem capaz de não..."

da Thita. Estejas onde estiveres.


  posted by MANUELA CINTRA @ 6:54 PM

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Segunda-feira, Setembro 03, 2007  
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